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terça-feira, 7 de agosto de 2012

PARTE I



Cecília se olhava no espelho. Puxava um pouco o rosto. Olhava alternadamente para uma revista na penteadeira e para seu reflexo no espelho, imitando indicações da foto. A penteadeira era antiga como muitas outras coisas na casa.
Pintou a penteadeira sob os protestos da mãe. “Vai desvalorizar o móvel, foi de sua avó quando casou!!”.
Cecília nunca se casou.

Tinha um escritório de contabilidade em Perdizes junto com mais dois contadores, aos fundos de uma copiadora. Trabalhava muito e fumava mais ainda.

Seus irmãos mais novos, um era desembargador e a caçula morava no sul, casada com um industrial bem sucedido e tinha um casal de filhos.

A mãe morava na casa que era uma espécie de edícola da sua, mas bem maior. Assistiam juntas às novelas.

Hermínia, sua mãe, gostava de reclamar do cheiro de cigarro. Dizia que entrava pela janela de sua sala e ia até o quarto. Falava muito de como a outra filha era generosa e dos netos, sempre deixando claro que Cecília não lhe havia dado netos. O esporte preferido de Hermínia era se queixar de doenças e de Ciça.
.
As casas eram da família. Cecília nunca as deixou. Pouco viajou. Seu último namorado era um sujeito muito gordo, divorciado, com 3 filhos. Ela, por sua vez, era extremamente magra. Gostava de dar palpites na vida do namorado, de como ele deveria conduzi-la, gostava de se mostrar bem inteligente, ainda mais que beleza nunca foi o seu forte, além de estar com 48 anos e aparentar bem mais de 50. Não 50 e bem mais anos viçosos, bem cuidados, mas 50 e mais anos como as desventuras de uma alma se retratam no rosto, além do próprio tempo.
Os dois brigavam muito e ele não media palavras para diminuí-la. Ela se vingava mostrando o quanto era inteligente e politizada. Nem era tanto, mas era boa em marketing pessoal e não fosse o vácuo de sua carência que acabava por afastar as pessoas, até seria uma pessoa agradável.

Haviam rompido há 06 meses. Cecília já tinha recorrido a cartomantes e pais de santo, mas sem resultados. Muito dinheiro gasto em desespero e oferendas das mais diversas. Sua casa se tornou um caos entre papéis de contabilidade, livros de auto-ajuda, velas, incensos e objetos místicos.

Precisava do namorado para suprir aquele buraco doído em seu peito, talvez também a ferida da auto estima inflamada agora pela rejeição.

Talvez até gostasse dele. Talvez, talvez fosse um pouco de tudo, já que sentimentos não são conceituais, não obedecem às nossas regras.

Olhava para o espelho e olhava o espelho. Cecília tentava, pensando ser "Alice", atravessar o Portal para mergulhar no Caos Primordial que são os sentimentos. Aventura deveras perigosa para alguém tão controladora. Ainda não havia se conformado que o Caos do sentimento a tudo domina. Tentava em seus pensamentos dissuadi-lo, para não sucumbir.


Fantasiamos sentidos. Fantasiamos que gostamos de um determinado alguém, fantasiamos que isto é certo e aquilo é errado. Fantasiamos uma ordem. Porém a realidade é o Caos em sua lógica complexa, tirana e própria. Não havia tempo para o pensamento organizar o bombardeio de informações entrecruzadas que recebia diariamente e por vezes até, “minutamente”.

Era muito difícil, muitas vezes, suportar a pressão atmosférica dos sentimentos, tão confusos, desordenados. A dor lhe torturava, por vezes, comprimindo circularmente e outras, um pouco pior, rasgando para dentro o coração, como se o dissolvesse, moesse em um redemoinho com a profundidade do infinito. Queria a morte para parar de senti-la, pois buscando sentidos não encontramos nenhum. Por isso, constantemente recorria a "analgésicos" dos mais diversos.


N.E: Primeiro era o Caos, depois a forma. Para arrumar uma caixa é preciso primeiro tirar os objetos para fora, depois organizarmos aos poucos um a um. Ciça tentava arrumar sem tirar os objetos e ao se deparar com objetos - muitas vezes desconhecidos - não queria olhar e nem mesmo saber o que era, empurrava de novo para o fundo da caixa, bagunçando mais ainda.



II

- A conta deu R$153,85, minha parte é 49, 35, somando os dez por cento.

Procura moedas, pois vai pagar exatos 49,35. Pede ao garçom que lhe troque R$ 2,00, providenciando moedas para seu troco de 0, 65 exatos centavos.



III


- Mãe, a senhora não vai ver comigo o filme ?

- Não dormi a noite toda. Estou cansada.




IV


Ciça não era o que o Hermínia tinha planejado, começando por nascer menina. Hermínia sentia ainda ter investido demasiadamente em Ciça e suas fragilidades... e não podia nem ter o orgulho de exibi-la. Ciça era espelho do que achava um fracasso social.

Não se casara e nem ao menos tinha um cargo de destaque. Ciça, por sua vez, tinha desesperada necessidade da aprovação de Hermínia, sucumbia aos desejos da mãe para tentar corresponder e ter um pouco de amor, além de evitar as críticas.

Ciça não aceitava que Hermínia não conseguia amar nada além de si mesma. Aceitar este fato faria Cecília se sentir culpada, além de impossibilitar qualquer chance de ser amada como gostaria.

De tanto auto controle para ser aceita e amada por todos não sabia o que queria da vida realmente. Havia perdido esta conexão, ainda no berço, talvez, restando, neste ponto da alma, um buraco negro.

Tentou baladas mas o único resultado foram porres sem fim. Decidiu que seria dona de seus sentimentos. Foi a um show de strip masculino. Curtiu colocar dinheiro na sunga dos rapazes. Sentia naquele momento que fazia compra vantajosa. Repetiu esta dose algumas vezes, sempre se martirizando no dia seguinte. Achou, de qualquer forma, que jamais encontraria alguém que gostasse dela, muito magra, pele escurecida por tormento e cigarro.

Não percebia que todos temos alguma luz, algo especial que completa os outros. Sentia-se vazia e assim sugava as presenças.

Quando a carência superou qualquer valor moral social, decidiu contratar “serviços” de um profissional do sexo. Pensou que sua depressão se devia a esta falta. Já havia feito terapias, mas não confiava em ninguém e acabava abandonando ao primeiro sinal de que a estariam vendo como é. Ela mesma não queria se ver, tinha medo do que iria encontrar. Era mais fácil acreditar em Hermínia e seus irmãos.



V

Noite de amor por encomenda.


Fabrizio, era seu nome ou nome de guerra? Jovem, na casa dos 20 e poucos, um tipo de origem simples, mas bonitinho e com o corpo bem tratado, como requer a profissão.

Parecia um pouco inseguro, principiante no ramo. Queria mostrar serviço antes de saber o que a contratante queria na verdade. Mas Ciça tratou logo de tomar conta da situação. Queira o corpo do rapaz, dominado, totalmente seu. Soltou várias fantasias, inclusive com acessório para atuar como um homem. Depois sentiu culpa. Resolveu que tinha que ser inteligente e saber da vida de Fabrizio, dar conselhos.

Contratou-o mais algumas vezes, pagando um pouco a mais do que o combinado, algo muito raro na personalidade dela. Sentia-se superior por ter mais cultura e ser de origem mais privilegiada. Tentava ensinar-lhe português corrigindo os “s”s que ele engolia nos plurais. Achou que tinha um vínculo. Mas não tardou a perceber que ele não lhe tinha um afeto especial, que tinha vida própria, distante dela. Simpatizava com ela, era tudo, o que foi mais um grande sofrimento.O sentimento de rejeição que carregava ecoou querendo vazar pela pele. O que não percebia era que não havia rejeição. Não havia vínculo. Buscavam talvez as mesmas coisas, só que em momentos e formatos diferentes.

Para se proteger, afirmava-se ser acima dele, melhor. Achava que poderia dominá-lo mental e afetivamente desta forma. Porém, suas atitudes e discursos só serviam para Fabrizio se afastar intimamente. As pessoas buscam iguais, não gostam de se sentir diminuídas. Ciça precisava se sentir mais do que Fabrizio, mas não sentia. Ela via nele o fulgor da juventude, da esperança que a idéia de longevidade traz.




VI
Balada Culta


Estava com uma amiga numa dessas casas que tocam Adoniran Barbosa, Cartola, dentre outros. Afinal, era culta, tinha que ir nestes eventos.

Começou a observar um senhor que se aproximava de moças mais jovens, roubava goles de algum drink alheio, abraçava e beijava no rosto algumas moças. O homem aparentava mais de 70 anos. Parecia se divertir enquanto se movia como se fora um adolescente. A amiga comentou que ele era figura conhecida na noite.

Costumava filar bebida e beijinhos “amigos”. Algumas corriam dele, algumas não viam maldade no vovô.

Ciça olhava com repulsa aquele velho de pele enrugada e magra, odiava pelancas da idade. Olhava e viajava: Tempo maldito, que passa sem que a alma sinta. Que sulca o rosto e o corpo, comendo devagar e rápido a vida pulsante, deixando a marca de que a Morte, feia, se aproxima, enquanto se pensa ludibriá-la.

- Ciça, helloooo! Onde vc está?
- Nada. Que velho horrível. Não quero ficar tão velha, prefiro antes morrer.
- Credo, a gente descobre outros valores com o tempo, assim dizia meu vô.
- Nada, são disfarces, ninguém pode ser feliz velho e pelancudo desse jeito. Cada vez que se olha no espelho lembra que a Morte tá chegando, tá entrando, tá te levando. E que ninguém te quer. Que tua morte, em algum momento, será alívio aos outros. Velho nojento.

- Ciça, bebe, você não tá legal.

Ela liga a Fabrizio, pede que vá para lá. Ele está em outro serviço. Ciça pede então que mande um colega, mas ele enrola, afinal, tem medo de perder a cliente fixa. Ela espera, ninguém aparece.

Chegando em casa olha novamente o espelho da penteadeira, joga uma garrafa com toda sua força. Chora do fundo do seu peito, para tentar aliviar. Dorme. Na manhã seguinte começa a olhar os cacos do espelho que refletem variadamente a luz do dia que vem da janela.




VII
Greice e Wellington


- GREEEICE!!! NÃO TÁ OUVINDO A PORTA?? CARAMBA!!! GREICE!!!!?? Tenho que falar toda hora ??? Anota!!! não dá pra eu ficar fazendo o teu trabalho PO!!!

  • D. Cecília, diz que é fiscal na porta.
  • Fiscal de que?

  • Não sei, só diz que é fiscal.
  • Ô infeliz, mostraram credencial?
  • Sim.
  • Então volta lá, vê de onde é e vem me falar. SEJA EDUCADO WELLINGTON.
  • É do Procon.
  • E que merda eles querem aqui???
  • Falaram que é denúncia de cigarro.
  • Caraca!! Só o que faltava. GREICE!!!!!!!!!!!!!!
    ….........................
  • Pronto Wellington. Vai lá chamar.
- Viu gente, não acharam nada. To achando que é o desgraçado do Sandoval que tem mania de dar pitaco em tudo e vive me enchendo por causa do cigarro. To na minha sala, caralho, ele tem a dele!! Será que ele tá querendo me dar um golpe?? Esse idiota não sabe que se tiver multa vai  pra todo mundo?? Ah, mas claro – ele é desprendido.... tudo pelo social – ah! Até parece. Mas ele vai ver só!! Já é a terceira vez né Greice? Greice, GREEICE.

Greice olha de lado, meio para o chão e diz: – acho que é sim.

  • Disseram quem foi o X9?
  • Que?
  • O X9, o delator.
  • Não senhora, só pediram pra assinar um papel.
(Wellington) – Era um tal de Anônimo.

  • Jerônimo?
  • Anônimo.
(Greice e Wellington riem baixinho)

  • Não tem graça não, não tá vendo que é sério?? Tão querendo me derrubar. E se eu cair vocês também “caaaem”, isso os espertos não veem né? Mas...papel pra assinar? cadê esse papel??
  • Eles não deram cópia, disseram que era só registro, que tava tudo bem.
  • Como é que você sai assinando as coisas sem saber??? E agora, se vier multa? Se vier você paga viu, quem mandou assinar. Porque não foi me levar?
  • Porque a senhora disse que era pra dizer que não estava.

Ciça respira fundo algumas vezes, com a mão no coração, pressentindo suas crises de asma.

  • Foi assim das outras vezes, disseram que se fosse multa ficava cópia.
  • Ah, tá. Tomara. Greice cadê meu troco?
  • Em cima do seu escaninho, como sempre.
  • Tá faltando R$ 0,10 centavos.
  • Não D. Cecília, tem é R$ 0,05 a mais.
  • Cecília conta – tem razão – tome R$ 0,05.
  • Não quero.
  • Por isso que é pobre – tome os R$ 0,05!

Greice e Wellington se entreolham disfarçadamente, ainda não foi dessa vez....



VIII


Quer se aproximar de Hermínia. Vai até lá e diz que comprou um queijo pra ela. Estava quase na hora da novela. Hermínia não ouve, está falando que apareceram umas dores estranhas, por todo o corpo, pernas, costas, acha que está com pneumonia e acha também que está sentindo umas cólicas no coração.

Ciça olha, cansada. Lembra à mãe que vai passar um episódio especial na novela, que finalmente Adalberta vai se encontrar com Marcos e contar a verdade. A mãe pega o roupão, o cachecol e vai para a casa da filha – “mas sem cigarro hein??!!!”



IX

Ciça volta a olhar os cacos, intrigada. Não sabe por que não os recolheu. Lembra que a mãe tem por hábito não se desfazer de nada, mas não era isso, era? Toma seus diversos analgésicos (anti-depressivo, ansiolítico, estabilizador de humor, enfim).

Quebrar um espelho, 07 anos de azar. E quebrar de propósito?? E se ela pudesse quebrar ela mesma? Virar um monte de mini Ciças ? Melhor era não olhar mais aquele espelho. Joga fora os cacos.

Começa a olhar a madeira que prestava suporte ao espelho, quer ver algum desenho, ter algum sinal.

Mas nem sinal, nem telefone e o único SMS era da operadora de celular.

Já dopada, fecha os olhos, sente que a água de seus olhos lhe cortam, como se ácidas, um pouco os cantos dos olhos. Dorme.



X

Que doença da alma é a tristeza, que possui todo um ser e pensamentos, constantemente apertando o coração e enevoando a visão?

E nossa organização interna tem fins lucrativos. Deixar de perder pode ser um ganho. Talvez por isso não queiramos perder nem aquilo que machuca constantemente dentro da gente.



XI

Sair!! Sair!!! Não! Melhor chamar aquele irresponsável do Fabrizio.

Liga para o rapaz. Naquela noite, entra pela primeira vez na casa de Ciça. Era tarde, entrou na surdina para que Hermínia não percebesse movimentos na casa em frente.

Pede apenas para que ele sente na cama e deita a cabeça em seu colo, abraçando-o. Dorme.

Quando acorda, ele está dormindo sentado. Primeiro ela o olha com carinho. Depois senta, pega o dinheiro e fala para ele sumir e nunca mais aparecer. Fabrizio fica sem entender. Pega o dinheiro, desta vez o valor real, e tenta perguntar o que houve. Mas ela começa a ficar brava mandando-o embora e ele vai.

Fabrizio segue com o pensamento de que a coroa era mais doida do que ele imaginava, com raiva, por que o tratou assim, afinal? Mas não deixa de sentir um certo vazio, leve falta de algo, em seu peito, um algo que não sabe o que é, mas que vai se desvanecendo até o dia seguinte.




XIII
Inclusão Digital
sissa77@.....

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Notas de 0 a 10, para que isso? pensa. Tinham que complicar? Nota para quanto é atraente, sexy??? Não bastava inteligente, organizada? Que gente superficial!  Ciça, em um primeiro impulso, quer ser sincera, mas o site é pago, é melhor não arriscar. Mas... se não for sincera, e agora? Ainda vai ter que gastar com fotógrafo. Pensa que talvez o eventual pretendente, depois de conhecê-la.... afinal, ela se acha generosa, legal. Mas quanto isso contaria?



PARTE II

Após duas semanas, entre esquecer senha, mudar o perfil, site com problemas (tente mais tarde....) e fotógrafo, finalmente conclui o formulário.




XIV
Dia dos Pais


Dois lugares ficam cheios no Dia dos Pais: restaurantes e cemitérios.

Ciça, desde o falecimento de um primo de sua mãe, gostava de visitar cemitérios. Sentava em algum túmulo, que tivesse foto. Fazia a conta de quantos anos aquela pessoa viveu, tentava imaginar como teria sido sua vida, se tinha sido amada, como era a família, se tinha tido alguma profissão importante.
Permaneceu com este hábito até os 16 anos, quando um padre, intercedendo a pedido de Hermínia, que se assustava com o que achava desajuste da filha, disse-lhe que não era bom visitar túmulos alheios, que devíamos visitar somente família e amigos. Perguntou o por quê, o padre respondeu somente que ela teria pesadelos e que ela poderia estar perturbando os mortos – citou Cristo: “Deixem que os mortos enterrem seus mortos”. Pensou, não entendeu, afinal não dizia a Bíblia que somos todos irmãos?? Mas com receio, obedeceu.

Tinha 10 anos quando viu um morto pela primeira vez, no velório daquele primo. Achou estranhíssimo aquele corpo sem vida. Mas imaginava que a qualquer momento ele iria abrir os olhos e sentar.

Estranhou também que não tinha ninguém chorando ou debruçado sobre o corpo, como tinha visto em novelas e em um filme. Pessoas conversavam vários assuntos. Entendeu que as pessoas estavam ali, mas não deviam gostar de verdade do primo. Todos cumprimentavam a viúva, apenas ela parecia triste, mas também não chorava.

Chegando em casa, enquanto os pais estavam mais para os fundos da casa em seus afazeres, fechou a cortina da sala, esvaziou a mesa de jantar, encheu com as velas de reza de sua mãe, encheu o rosto e os braços com pó de arroz e obrigou os irmãos a velarem como se estivesse morta, em cima da mesa. Não havia flores de verdade, paciência.

Os irmãos tinham 07 e 05 anos. O menino pergunta se pode ficar com sua coleção de tampinhas. Ela se lembra que não deixou testamento, senta-se e fala brava:

- Somente se você chorar muito!!

O menino começa a fazer que chorava alto e a pequena entra em pânico, olhando para a irmã, e abre o berreiro de verdade, paralisada.

A mãe escuta e vai ver o que ocorre. Acaba com o velório, grita com Ciça, fala que ela está cometendo um pecado mortal e a põe de castigo. O irmão afirma que Ciça os obrigou e assim escapa. Ao comentar com o marido, este ri dizendo ser coisa de criança. Hermínia fica ainda mais furiosa e deixa Ciça mais tempo de castigo.

As concessões e proteção à Cecília por parte de Jonas, que visava também protegê-la e compensá-la da hostilidade que percebeu em Hermínia logo no nascimento da filha, resultava em ira ainda maior por parte da mãe, que se sentia como uma Hera traída.

Nos aniversários de nascimento e passamento do pai, Cecília deixava ao irmão a função de levar a mãe ao cemitério. Dizia que não iria, mas na verdade ia sozinha. Queria estar a sós com o pai.

Jonas falecera quando ela tinha 19 anos. Ao sentar no túmulo, perguntava ao pai se lembrava de quando a levava à padaria nos ombros, que o irmão queria também, mas o pai, geralmente, só levava a ela. Algumas vezes foram a restaurantes sem o restante da família. Informava que tinha hoje bem menos crises de bronquites asmáticas, de seus feitos no trabalho, mas nunca comentava sobre suas desventuras amorosas em série.

Tanto o pai quanto a mãe, constantemente, nas crises de asma de Cecília, a acudiam apavorados. A diferença era que, posteriormente, a mãe curtia se queixar aos outros de como Cecília lhe havia dado trabalho, em ar de sofrimento heróico.

Ciça chora um pouco, beija as flores e as arruma próximas à foto...margaridas que o pai gostava.

Vai à igreja.



XV
Confessionário


Sempre era estranho o início da confissão. Ir falando o que fez de errado, sem nem um “warm upizinho...” Enfim, melhor não falar de Fabrizio. Confessou que gritou com os funcionários e com a mãe. Falou também que a mãe não gostava dela e que ela, por sua vez, tinha ódio da mãe. O padre lhe disse que deveria estar enganada quanto à mãe, o que a deixou mais irada. “Devemos perdoar minha filha, todos temos nossas limitações, seja lá o que for, sua mãe lhe deu a vida”. Bela bosta, pensou.

Contou que tinha entrado em um site de relacionamentos. “Padre, se o senhor fosse homem, acha que iria se interessar por alguém como eu?” “Quero dizer, desculpe, o senhor é homem né? Mas digo, se o senhor fosse um homem normal... iria?” O padre respondeu que ela continuasse persistindo, que todos têm alguém, que ela prestasse mais atenção ao redor.



XVI
Carlos


Seria esse nome verdadeiro? Bem, ela era Sissa. Viu Carlos, um homem de tipo bonito, que nem olhou para verificar se ela era Sissa. Resolveu sentar em uma mesa próxima e observar.

Ele se levanta, sorrindo, algumas vezes, para moças que acabam passando reto. Senta-se. Ciça, ou melhor, Sissa, espera e observa. O garçon se aproxima, ela comenta alto que está esperando uma pessoa. O homem olha o relógio, passa de meia-hora. Sissa vai embora.

Ainda dá tempo de pegar o final da feira. Vai à barraca de Seu Emanoel, sempre gentil.

Emanoel era um homem robusto, alto. Ciça fica lhe observando carregar umas caixas, com o suor escorrendo-lhe pelos braços e peito fortes. Fica assim, observando seus movimentos, acha bonito mesmo o que chama de “barriguinha”. Entra em conflito. Deve estar desesperada por estar observando um homem assim rude, sem instrução.

Emanoel lhe sorri, “o de sempre?”, “leve estas ervilhas tortas, uma lady tão delicada precisa se alimentar bem”! Seria apenas gentileza? Seria só para vender? Ele lhe dá de presente para que experimente.

Leva as compras dela até a casa. No caminho, Ciça pergunta como vão os filhos. Emanoel é viúvo, pai de dois filhos, Merieny, 19 e Kleberson, 18. Emanoel quis batizar a filha de Lady Di, mas o cartório não permitiu, teve que se contentar em batizar a cachorrinha.

Despedem-se. “Feliz Dia dos Pais”, Emanoel agradece sorrindo: “Espero que mi lady goste das ervilhas”. Ciça não consegue conter o sorriso.

Hermínia está esperando na cozinha, fazendo palavras cruzadas. “Você não está dando confiança para o feirante, está Cecília??!!”




PARTE III EPÍLOGO


Pedro Paulo
@


Desta vez não haveria dúvida, reservaram mesa determinada.

Sissa observa aquele sujeito magro, altura mediana, com óculos quadrados, lentes grossas e de movimentos rápidos e tensos, lembrando uma ave, um papa-léguas de óculos.

Pedro Paulo era engenheiro, chefe de seção em uma empresa automobilística.

Sissa se dirige diretamente à mesa e senta-se logo após se identificar.

– Pensei que você era mais bonita.
– Também pensei que você fosse mais atraente... e educado.
– É que sua foto... bom, tudo bem.

Ordenam o pedido, em que Pedro Paulo altera praticamente todo o prato, inclusive solicitando sem sal por conta de sua pressão.

Pedro Paulo não para de falar, aliás, de falar de si. Enquanto esperam o prato que naturalmente demora muito mais que o usual dadas tantas alterações, Sissa já está na terceira caipirinha.

Após o almoço, seguem a um motel.

Pedro Paulo acha de bom tom tomar um chuveiro antes, ao o que Sissa aproveita para verificar se o nome Pedro Paulo é verdadeiro. Logo encontra uma cartela com pílulas azuis e trata de largar a carteira.

Ele é preciso, quase direto, ela por sua vez apenas segura-o de leve nas costas não vendo a hora de ele terminar.

Ao final, já se arrumando, Pedro Paulo pergunta: Gozou?
– sim.

Ele a leva para casa, sem que troquem uma palavra no caminho, deixando à música do rádio esta função.

Ao se despedirem, Sissa pergunta:

– A gente vai se ver de novo?
– A gente vai se falando.

A primeira atitude de Ciça ao entrar em casa é pegar uma dose de cachaça. Abre o computador e olha o book de Fabrizio.

Ciça neste momento está em uma tristeza oca que parece querer dissolvê-la para dentro, como areia movediça. Quanto mais se aflige mais deseja se embriagar. Resolve então enviar um torpedo a Fabrizio.

Mas, o que diria? Lembrou-se de um poema que havia lido em uma revista velha. Revira tudo e após encontrar raridades que nem lembrava ter, mas que um certo dia procurou, encontra a revista.

Questionou-se se era certo assinar como autora. Lembrou do filme “O Carteiro e o Poeta”, o que a encorajou, ainda mais pelo fato de que o poema traduzia exatamente o que ela sentia. Refletiu que poderia ser, quem sabe, feito para ela mesmo, nessas vias divinas que desconhecemos. E quer saber, de que vale um poema se ficar guardado numa revista velha? pensou.

Fabrizio: Enviando

Você era de Vênus, eu era de Marte
O que aos humanos parecia inviável se torna tangível
Bastou abrir os olhos e perceber acordada
Que o nunca é tempo demais
Para se perder enredado nas teias do não
a longínqua e eterna busca de teu sim

Você era Marte e eu Vênus
Envolta em teu aperto, presa no teu beijo
mergulho em tua barba ansiosa roçando meu peito,
o beijo da tua alma me engole.

Saudade dos teus braços, da tua voz em meu pescoço
da minha boca em teu sexo
das tuas pernas nas minhas
das minhas em teu dorso
do gosto do teu respirar pelo meu corpo
do sabor da tua língua mordendo minhas coxas,

Saudade de tuas besteiras de menino
de teu jeito quase sério
do desejo nos teus olhos
de teu riso doce
teu sorriso lindo

                                       Sissa.


Toma seus comprimidos usuais e se dirige à casa da mãe, ainda há tempo de ver o final da mini-série das 11:00h.

Logo adormece no sofá. Hermínia a cobre com um cobertor. Pelo meio da noite Cecília acorda e percebe a manta, sente-se feliz, continua a dormir.


XXI


Vai à feira. Emanoel a atende com a prontidão costumeira e mais uma vez se oferece para levar suas compras.

Ela caminha um pouco à frente e Emanoel a observa, admirado. Para Emanoel, Cecília é uma mulher muito elegante, aqueles cabelos curtos, lisos. Cecília lhe lembrava a Lady Di.

Ao chegar em casa, aproveita a ausência da mãe e o convida para um café. Ele olha surpreso e aceita prontamente.

– Seria muito abuso se eu pedisse um copo de água?

Ciça se senta, esperando a água ferver. Comenta que o melhor café é o feito com a chaleira, que as máquinas não conseguem um café saboroso. Emanoel concorda encantado, pensa o mesmo.

Ele deseja a chamar para sair, mas tem medo. O que uma mulher de fino trato como D. Cecília pensaria?

Enquanto passa o café percebe o olhar embevecido de Emanoel e fica tão contente que nem se percebe sorrindo. Serve o café.

– Queria falar, mas tenho medo que a senhora se ofenda.
– Bom, diga – ainda sorrindo.

O celular à mesa dá o toque de mensagem:

Oi. rsrsrs Recebi seu torpedo rsrsrs Não entendi a primeira parte rsrs mas o resto gostei muito rsrsrs Você tá querendo me ver? rsrs
beijos.

Que mania que estes jovens têm de colocar um monte de rs' s !!! pensou – minha sobrinha é a mesma coisa, sempre tem mais rs's que qualquer outra coisa!!! Bom, mandou beijo, bom sinal.

Segundo uma conhecida de Ciça, o homem é um ser bastante previsível neste aspecto, quando manda beijo significa caminho aberto.

Cai em si e vê Emanoel esperando, olhando atento.

– Desculpe. O que você ia dizer?
– Nada, desculpe, é besteira.
– Nãaao, por favor, continue!
– Eu tenho medo de ofender, eu queria fazer um convite, mas a senhora
parece uma princesa.

(princesa de princesa ou de metida?? o que seria?) - Diga.

Emanoel olha para o lado, com a cabeça baixa e rosto vermelho. Ciça se deleita, viaja extasiada vendo um homem tão grande com este jeito de menino tímido por sua causa !

Sem olhar para ela, ainda:

– Será que a senhora se ofenderia se a chamasse para jantar?

Ciça não cabe em si, está “se achando”.

– Por favor, não me chame de senhora. Sou Cecília, ou melhor, Sissa
com três Ss.

- Sissssa?
– É. Mas sim, acho que gostaria sim.

Ele tem vontade de dizer que acha seu olhar tão sexy, mas se detém.

– Tem uma churrascaria rodízio perto da minha casa. A salada e os legumes são excelentes, eu sei porque eu que forneço!

Ciça continua viajando na timidez de Emanoel, sentindo-se uma rainha.

– E se em vez disso fôssemos a uma danceteria, faz tanto tempo que não vou...

Emanoel sorri feliz. E novamente abaixa a cabeça de lado, ainda mais vermelho.

– Sim, claro. A senh.., quer dizer, você diz uma balada? Claro, só que não sei dançar.

– Não importa, não vamos a um concurso né?

– é.


Ciça quer perguntar quando, mas teme ouvir “a gente vai se falando”.

Emanoel respira fundo e solta:

– Poderia ser hoje à noite?? Não trabalho amanhã e...

– Certo! Hoje!!!


Toque de mensagem de novo. Desta vez é a operadora de celular com ofertas. Ela digita:

 - VÃO PRA PUTA QUE OS PARIU !!!


Desliga e volta a olhar sorridente para Emanoel.
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